Terapia Financeira Integrativa: o papel da relação terapêutica na mudança do comportamento financeiro

por Gécyca Magalhães

4 min de leitura

A Terapia Financeira Integrativa vai além dos números. Através da conexão humana, escuta sem julgamentos e foco nas emoções, ela transforma a relação com o dinheiro de dentro para fora.

Terapia Financeira Integrativa: o papel da relação terapêutica na mudança do comportamento financeiro

Chega a hora de mais uma primeira sessão de Terapia Financeira Integrativa. Antes de ligar a câmera, respiro fundo, pois quero que meu foco esteja totalmente ali, naquele momento. Olho para o post-it com a frase de Carl Jung, da qual gosto muito:
“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana”, e estou pronta para começar.Nesse ritual, tenho o desejo de que esse primeiro contato consiga, de forma genuína, construir uma conexão segura e emocional com a pessoa do outro lado da câmera.

Como diz a Psicóloga Amélia Guimarães no seu livro Psicologia Baseada em Evidências para Relacionamentos., é por meio da conexão que transformações profundas podem acontecer. Antes de qualquer técnica ou ferramenta, existe um encontro. Um espaço de escuta, acolhimento e respeito, onde a pessoa pode se mostrar como realmente é, sem julgamentos. E essa relação terapêutica, que é um espaço construído com base em confiança, empatia e segurança, não é apenas um detalhe do processo, ela é parte ativa dele e facilita a aplicação das técnicas e a transformação desejada.

Dito isso, meu olhar vai além do “quanto você ganha ou gasta?”, tão comum em atendimentos tradicionais de planejamento financeiro. Minhas indagações são: O que você pensa? O que você sente? Como se comporta? Em qual ambiente está inserido? Porque, no fim, como dizia o Antonio Damásio “Não somos máquinas racionais que sentem, somos seres emocionais que pensam.” E o nosso comportamento financeiro é uma consequência de todo esse conjunto.

Ou seja, o foco está em compreender o ser humano por trás das decisões, questionar, acolher, orientar, esclarecer, psicoeducar e fortalecer comportamentos funcionais. Assim, a gente começa a transformar a forma como cada pessoa se relaciona com o dinheiro.
O dinheiro carrega histórias, emoções e significados profundos. Pode representar segurança, medo, poder, liberdade, ou até dor. Quando pergunto o que o dinheiro representa para você? As respostas são muito esclarecedoras para o momento financeiro atual.
Muitas pessoas chegam acreditando que suas dificuldades financeiras estão ligadas à falta de conhecimento ou a baixa renda. Mas, na prática, esse quase nunca é o principal problema. Grande parte dos desafios está nos padrões emocionais, comportamentais, cognitivos e sociais. São crenças construídas na infância, experiências familiares e eventos marcantes que em algum momento moldaram a forma como cada pessoa lida com o dinheiro. E, sem acessar essas camadas, qualquer tentativa de mudança tende a ser superficial e, muitas vezes, não se sustenta.

Sem a devida clareza qualquer estratégia, ou até mesmo uma arquitetura de escolhas (nudge), tem prazo definido para deixar de funcionar. É nesse ponto que a Terapia Financeira Integrativa começa a fazer diferença de verdade.
Ao longo do processo, a pessoa encontra um espaço seguro para falar sobre dinheiro sem medo de julgamento, o que é raro, já que o tema costuma vir carregado de vergonha, culpa e ansiedade.
Com o tempo, começa a identificar padrões automáticos de comportamento, como consumo impulsivo ou autossabotagem. E isso não acontece por acaso, as pesquisas de Kahneman revelam que muitas decisões financeiras são guiadas por processos inconscientes do cérebro.

Mais do que mudar comportamentos, esse processo permite ressignificar o próprio dinheiro. Afinal, como já dizia Damásio, as decisões deixam de ser apenas racionais e passam a incluir também o papel das emoções. E isso muda bastante coisa.
A ansiedade financeira começa a diminuir, a relação com o futuro fica menos pesada e as decisões passam a ser mais conscientes, mais alinhadas com o que realmente faz sentido para aquela pessoa. Além disso, existe o desenvolvimento da autonomia. O objetivo não é dizer o que fazer, mas ajudá-lo a construir suas próprias respostas, com mais clareza e segurança.

Estudos de Ariely e Kontz da psicologia econômica apontam que nossas decisões financeiras são profundamente influenciadas por fatores emocionais e comportamentais, muitas vezes fora da nossa consciência. Por isso, olhar só para números não é suficiente.
Diferentemente do planejamento financeiro, que foca em estratégias e resultados, a Terapia Financeira Integrativa prioriza a relação: consigo mesmo, com a própria história e com o dinheiro. A mudança acontece de dentro para fora. E os resultados financeiros passam a ser consequência desse movimento mais profundo.

Cada vez mais, tenho certeza, na prática com meus clientes, de que o grande diferencial desse trabalho, e o que gera resultados realmente duradouros, está na capacidade de conexão genuína. Porque, no fim, estamos lidando com histórias, emoções e vidas. E toda transformação real começa quando alguém se sente verdadeiramente visto, ouvido e compreendido.

Referências

1. Ariely, D. (2008). Previsivelmente irracional: As forças ocultas que formam as nossas decisões. Elsevier.

2. Damásio, A. R. (1994). O erro de Descartes: Emoção, razão e o cérebro humano. Companhia das Letras.

3. Guimarães, A. (2021). Psicologia baseada em evidências para relacionamentos.

4. Kahneman, D. (2011). Rápido e devagar: Duas formas de pensar. Objetiva.

5. Klontz, B., & Klontz, T. (2023). A mente acima do dinheiro: O impacto das emoções em sua vida financeira. Figurati.